A morte, na semana passada, de Diego Maradona, o grande astro do futebol internacional, comandante da vitória argentina na Copa de 1986 do México, fez explodir uma enorme comoção no país vizinho e uma grande tristeza mundo afora, mas serviu, infelizmente, para expor de maneira clara o olhar enviesado e preconceituoso de significativa parte da imprensa brasileira contra esse espetacular jogador.
Maradona possivelmente não jogou tanto quanto Pelé, tido como o Rei do Futebol, ou mesmo mais do que seu conterrâneo Messi, e pode até ter apresentado futebol inferior a Zidane ou Cruyff, mas nenhum artista da bola em todo o planeta alcançou o nível de adoração quanto ele, tido na Argentina como um Deus, e aclamado pelo povo, sobretudo pelas pessoas pobres, como um verdadeiro pai, pois carregava seu espetáculo em campo sempre olhando para os mais desprotegidos, num sinal de vínculo indissociável de suas origens, num permanente ritual de agradecimento aos seus torcedores e fãs.
Maradona morreu aos 60 anos Mas o que vi em 25 de Novembro, nos noticiários sobre a morte e nas intermináveis transmissões ao vivo de quase todas as redes de televisão do Brasil, foi uma obsessão desmedida de apresentadores, repórteres e analistas, de focar, insistentemente, em duas condições da vida de Maradona: “suas posições políticas controversas, polêmicas, erráticas”, e sua “entrega às drogas”, num referência ignorante e perversa ao fato de o jogador haver sido colhido por narcóticos, e deles tenha virado dependente químico.
Esquecem- se não bastassem os feitos fenomenais do jogador em campo-, que Maradona não é louvado apenas por isso, mas muito por sua trajetória fora dos gramados, com os fortes embates que estabeleceu contra os poderosos da política, notadamente no período truculento da ditadura militar.
E daí?
Ter opção política pela esquerda, admirar e apoiar líderes continentais do socialismo, num claro esforço contra as desigualdades sociais e a concentração de poder e riqueza nas mãos de poucos, o tornam o ser “errático”, de posições “controversas, polêmicas”, que essa imprensa aponta?
Penso ser oportuno lembrar aqui o que diz o antropólogo e professor Edison Castaldo, pesquisador do Centro de Estudos de Pessoal e Futebol: “Ele é uma espécie de liderança popular, que veio do povo e não se esquece de onde saiu. Isso é uma marca central no caráter do Maradona”, uma conclusão de suas pesquisas voltadas para as relações entre o futebol e a identidade nacional. E é dessa forma que os torcedores argentinos interagiam com a figura do jogador, diante da sua dedicação à atuação na política.
Diego Maradona