O Piauí é o 7º estado brasileiro com menor taxa de mortes por Covid-19 para cada grupo de 100 mil habitantes. O dado no Estado é de 101,9 para cada grupo de 100 mil habitantes, atrás apenas dos estados do Maranhão (71,4%); Bahia (79,5%); Minas Gerais (87,7); Alagoas (89,9); Tocantins (97,0) e Pará (99,9), conforme o estudo “Ciência e pseudociência durante a pandemia de Covid-19: o papel dos ‘intermediários do conhecimento’ nas políticas dos governos estaduais no Brasil”, do pesquisador Rodrigo Fracalossi de Moraes, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Apllicada).
O pesquisador Rodrigo Fracalossi afirma que em resposta à pandemia de Covid-19, governos em todo o mundo mobilizaram cientistas para a elaboração, implementação e avaliação de políticas de enfrentamento à pandemia, que analisaram as evidências científicas disponíveis e trabalharam para incorporá-las em políticas, sendo dessa forma uma interface essencial entre governos e comunidade científica.
Para Rodrigo Fracalossi, eles desempenharam o papel de “intermediários do conhecimento”, filtrando, sintetizando ou destilando informações científicas úteis para um dado problema, e transformando-as em conhecimento passível de ser utilizado diretamente por governos.
“No Brasil, em um contexto de descentralização e fragmentação de políticas contra a Covid-19, governos estaduais criaram 69 comitês científicos, grupos de especialistas, comitês de crise, ou espaços equivalentes, para além de utilizarem secretarias de saúde e outras estruturas previamente existentes”, declarou o pesquisador do Ipea.
Piauí tem a 7ª menor taxa de mortes por Covid-19 no Brasil, diz pesquisa (Foto: Reprodução)Ele comparou estes arranjos institucionais, avaliando se – e em que medida – eles apresentaram as seguintes características: 1) criação tempestiva; 2) escopo abrangente e preciso; 3) participação de especialistas; 4) interdisciplinaridade; 5) transparência; e 6) proximidade com o processo político.
Além destes seis aspectos, Rodrigo Fracalossi investigou se – e em que medida – governos usaram informações sem base em evidências científicas. Estas poderiam estar relacionadas ao chamado “tratamento precoce”, a outras formas de tratamento ou prevenção da Covid-19 sem base em evidências científicas, ao desencorajamento do distanciamento social, ou à defesa da imunidade de rebanho via transmissão da doença.
Rodrigo Fracalossi calculou um indicador que mede o quanto os estados brasileiros adotaram arranjos que favoreceram a incorporação de evidências científicas em políticas contra a Covid-19. Os dados sugerem que a maioria dos estados criou bons mecanismos. Os que tiveram os valores mais altos neste indicador foram Paraíba, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Espírito Santo e Rio Grande do Norte. Outros estados, contudo, careceram de mecanismos adequados de intermediação do conhecimento, como Alagoas, Amapá, Mato Grosso e Roraima.
De zero a 10, o Piauí obteve na nota 7,5 porque a pesquisa do Ipea avaliou que a criação de ações de combate à pandemia da Covid-19 usando a ciência foi rápida; que o escopo abrangente e preciso foi médio; houve a participação de especialistas na definição das medidas sanitárias; a interdisciplinaridade foi parcial; a transparência foi média; e a influência alta.
O Rio de Janeiro apresentou instabilidade, possuindo inicialmente um arranjo adequado, o qual foi substituído posteriormente por outro com capacidades limitadas. Além disso, os arranjos institucionais foram mais adequados em alguns pontos do que em outros: a maioria dos governos criou arranjos logo no início da pandemia; especialistas tiveram participação expressiva; e arranjos foram geralmente influentes. Contudo, em muitos casos o seu escopo não foi abrangente, as atribuições foram pouco precisas, a transparência foi limitada, e a interdisciplinaridade foi fraca. A interdisciplinaridade foi, em particular, o ponto mais deficiente (dentre os avaliados) nos arranjos estaduais de enfrentamento à pandemia.
Por fim, em quinze Unidades da Federação foram observadas políticas não baseadas em evidências científicas, especialmente recomendações voltadas ao “tratamento precoce”.
Piauí tem a 7ª menor taxa de mortes por Covid-19 no Brasil, diz pesquisa (Foto: PMT)De acordo com a pesquisa do Ipea, no Piauí, em parte, foram usados os medicamentos do kit anti-Covid, que incluía a hidrocloroquina; mas não foram usados preventivos ou de outras formas de tratamento da doença busca da imunidade de rebanho via transmissão da doença.
Houve aumento de 66% na venda de azitromicina, entre março de 2019 a fevereiro de 2020 em comparação com março de 2020 a fevereiro de 2021. No Piauí, houve recomendação de uso da azitromicina contra a Covid-19 por autoridades estaduais. A data da primeira recomendação ou política de apoio ao uso de azitromicina no Piauí pelas autoridades foi no dia 8 de abril de 2020.
“Na ausência de um arranjo institucional robusto no governo federal para a incorporação de evidências científicas em políticas de enfrentamento à pandemia, e em razão da ampla disseminação de informações falsas ou distorcidas, surgiu no Brasil um sistema descentralizado e fragmentado de enfrentamento da pandemia de Covid-19. Os governos estaduais tiveram um papel central, adotando – em sua maioria – evidências científicas para nortear políticas contra a epidemia. O uso de evidências foi observado na criação de comitês científicos, na adoção de planos organizados de distanciamento social, na elaboração de protocolos para setores específicos (escolas, estabelecimentos comerciais, por exemplo), dentre outros. Dessa forma, governos estaduais preencheram em parte um espaço deixado em aberto pelo governo federal”, declarou o pesquisador do Ipea Rodrigo Fracalossi de Moraes.
Rodrigo Fracalossi de Moraes afirmou que todos os governos estaduais agiram de forma relativamente rápida no início da pandemia, criando ou ampliando arranjos institucionais específicos para elaborar políticas e adotando medidas obrigatórias de distanciamento social.
Piauí tem a 7ª menor taxa de mortes por Covid-19 no Brasil, diz pesquisa (Foto: Sesapi)Contudo, houve variação substantiva quanto às demais características destes arranjos. Alguns governos estaduais mobilizaram especialistas de referência em disciplinas importantes para o enfrentamento da pandemia (infectologia, virologia, epidemiologia, ciência de dados, economia da saúde, dentre outras), como ocorreu na Paraíba, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Outros, contudo, criaram comitês com formatos não adequados à gestão de uma pandemia, compreendendo majoritariamente pessoas com pouca ou nenhuma experiência na área, como ocorreu no Mato Grosso, Rio de Janeiro (durante parte do período em análise) e Roraima.
“A interdisciplinaridade nos comitês estaduais (ou equivalentes) foi o ponto mais deficiente, havendo contudo algumas exceções (Rio Grande do Sul, por exemplo). Trata-se de um problema, pois uma equipe interdisciplinar poderia oferecer métodos diversos para se enfrentar a pandemia, combinando conhecimentos oriundos tanto da área de saúde pública como de outras disciplinas (ciência de dados, economia da saúde, ciências comportamentais, por exemplo). A transparência dos trabalhos foi também um ponto deficiente em muitos estados, havendo em vários casos pouca informação divulgada ao público sobre como os comitês trabalhavam e seus resultados. Um ponto comum (e positivo) na maior parte dos estados, contudo, foi a influência dos comitês. Embora alguns estados tenham tido comitês especialmente influentes (Bahia, Ceará, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe), em poucos casos se observaram comitês sem influência. Situações como estas foram observadas apenas no Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro (em parte do período analisado)”, concluiu Rodrigo Fracalossi de Moraes.