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22 de jun. de 2021

É urgente um esforço comum no combate à criminalidade


Vi na última sexta-feira a lúcida e corajosa entrevista que a desembargadora Ivana David, de São Paulo, concedeu à Folha/UOL, na qual enfatiza que a violência e a criminalidade no Rio de Janeiro é de enorme gravidade, porque “a milícia (envolvida no crime) é parte do Estado, está presente em 72% do território do Rio e também dentro da polícia e do governo. Estranhamente, não vejo julgamento de casos envolvendo milicianos. Tem também um jogo de cadeiras que só desestrutura e atrapalha as investigações.”

Ela narra que as milícias atuam no plano territorial, e o Rio tem essas características geopolíticas muito específicas, que são os morros. Os milicianos avançam nessas áreas que eram do Comando Vermelho. Só que a milícia não vende só droga, também oferece serviços, vende gás, internet, TV a cabo, casas, apartamentos.

Desembargadora Ivana David

E destaca: “Todas as organizações criminosas só funcionam por meio da corrupção de agentes públicos, mas as milícias levam vantagem nesse sentido, porque sabem como o Estado funciona e usam isso para o mal.”

Ela considera que as milícias são piores do que as facções, porque no caso das facções fica muito claro quem é o bandido e quem é o mocinho; “a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”


A juíza, que já comandou por anos o Departamento de Inquéritos Policiais (DIPO), já ordenou a prisão de criminosos poderosos, a exemplo de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, viveu longo período de ameaças de morte a ela e a sua filha (à época uma criança), e sabe, portanto do que está falando.

O que a juíza fala a respeito da criminalidade potencializada pela presença das milícias no Rio de Janeiro, é minunciosamente descrito pelo jornalista, escritor e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Bruno Paes Manso, no seu recente livro “A República das Milícias”, uma mistura rara de reportagem de altíssima voltagem, com olhar analítico e historiográfico, expondo de forma corajosa e pioneira essa ferida enraizada na velha Capital, mas hoje em grande expansão por todo o país.

Livro “A República das Milícias”

Um aspecto bastante curioso na narrativa de Bruno Paes Manso é a proximidade e apropriação que grandes líderes de milícias no Rio estabelecem com movimentos religiosos. E conta detalhes sobre as práticas de um desses líderes, Fernandinho Guarabu, comandante histórico do Morro do Dendê, precursor de um modelo que se espalhou por outras localidades, nas relações do tráfico com a milícia. Guarabu prezava pelo assistencialismo. Era conhecido como “bandido de Cristo.”

Frequentava a Assembleia de Deus Ministério Monte Sinai, colecionava Bíblias, mandava pintar muros com frases religiosas e tinha o nome de Jesus Cristo tatuado no antebraço direito. Também impedia a exibição de conteúdos pornográficos no gatonet local. Expulsou da favela fiéis de religiões de matrizes africanas e fechou 10 terreiros na região.


A religiosidade sempre ajudou vários criminosos a justificar atos de violência como um mal necessário. Essa guerra era moralmente justificada, feita em nome de algo que eles julgavam representar o bem. Esse tipo de moralismo aproximou os traficantes de Cristo dos milicianos. Ambos defendiam ordem nos territórios que comandavam.

Entre os traficantes religiosos, o salmo 91 sempre foi popular. O texto fala de um Deus que funciona como escudo protetor na luta pelo que enxergam como verdade. “Ele te cobrirá com suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel. Não terás medo do terror da noite nem da seta que voa de dia; nem da peste que mora na escuridão, nem da mortalidade que assola ao meio-dia”.


O “Bonde de Jesus”, apelido conferido pela imprensa ao grupo de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, comandava a venda de drogas em Parada de Lucas, Cidade Alta, Vigário Geral e Baixada Fluminense. O grupo reunia bandidos cristãos nessa cruzada moralizante de territórios para a venda de drogas. A polícia dizia que Peixão não apenas havia se convertido como tinha se transformado pastor de uma igreja evangélica. Peixão era líder do TCP e tinha levado o grupo a se expandir para comunidades historicamente ligadas ao Comando Vermelho. Nos ataques a terreiros, as tropas do Bonde quebravam imagens de orixás, agredia mães e pais de santo e aterrorizavam adeptos de religiões afro.

Os sentimentos de religiosidade que pregavam não eram nenhum freio para a prática de atrocidades. Em maio de 2009, o Bonde de Peixão matou sete jovens da comunidade Cinco Bocas, em Brás do Pina, que eles tentaram tirar dos rivais. Na invasão, os agressores usavam roupas pretas e toucas ninja, como nas operações policiais. Durante o ataque gritavam “Polícia!” e “Bonde do Peixão!”.


Os corpos dos jovens foram triturados e dados de alimento para os porcos.


A violência, a criminalidade, a clara movimentação de milicianos pelo território brasileiro, com infiltração perigosa nas polícias militares e uma presença notável na abertura de negócios, sobretudo de serviços, em várias cidades brasileiras, está acendendo um sinal vermelho entre governadores, especialmente no Nordeste.

Na semana passada, o governador Wellington Dias, do Piauí, anunciou que enviará à Assembleia Legislativa um projeto de lei criando a Força Estadual de Segurança Pública, integrada pela Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Penal. É necessário que a Justiça e o Ministério Público se juntem firmemente neste esforço.

Uma medida que visa manter estreita conexão, dar ênfase à inteligência e mecanismos de tecnologia em benefício do combate à criminalidade. Um acerto que outros Estados do Nordeste devem seguir.

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