Para uma mulher desesperada, por Glória Sandes - Barra d Alcântara News

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11 de ago. de 2021

Para uma mulher desesperada, por Glória Sandes



Glória Sandes

Jornalista e Representante do Levante Feminista contra o Feminicídio

Ele disse que vai te matar? Pois vai te matar! Isso é estatístico. Vai pegar uns 15 anos de cadeia, se for um feminicídio com muita crueldade. No entanto, não vai precisar cumprir. Ele vai negar, pois tu nunca denunciaste. Se, enfim, declarar que te matou, terá redução de pelo menos cinco anos da pena; mais cinco se for réu primário.


Se tiver bom comportamento e se alguma testemunha disser que ele é um cara bom e que só fez perder a cabeça porque tu eras muito ausente em casa, grosseira e não deixavas mais ele vasculhar teu celular, o juiz, que é machista, se identifica com ele, e reduz ainda mais a pena.

O curioso é que o réu vai reafirmar as palavras das testemunhas, que, por sinal, são irmão e cunhado dele. Acrescenta que foste agressiva e deste um tapa nele. E que ainda declarou gostar de outro e que ele não era homem pra ti. Tudo pra passar ao público a ideia de que eras vulgar e desbocada, o que nem combina contigo. Mesmo que fosses a pior pessoa do mundo - o que não é verdade - não há justificativa para o feminicídio.


Feminicídio foi inserido no Código Penal como uma qualificação do crime de homicídio em 2015 ( foto: Portal R7)




As maiores verdades no feminicídio é que a violência não aconteceu apenas naquele momento. Ela foi crescendo, até se tornar monstruosa. E que teu marido ou companheiro tem ódio de ti. Fique bem entendido, portanto, que se trata de crime de ódio. Ainda que seja lugar-comum, afirmo: quem ama não mata! Embora o júri popular o condene, e não vá aceitar nenhum atenuante, o promotor (também machista) faz corpo mole. E o juiz resolve começar a contagem pela pena mínima e ainda dar a ele todo tipo de desconto na penalidade.


Tu, depois de morta (que Deus te livre!) vai ser mais julgada do que ele, pois a família dele estará em peso te atacando e até requerendo a guarda da(s) criança(s). Se o movimento de mulheres resolver se manifestar na porta do Fórum, no dia do julgamento, a defesa vai dizer que estamos fazendo discurso de ódio a um pacato cidadão. E ainda vai perguntar ao réu se ele explica a raiva que a tua família demonstra. O que ele fez pra que tua família esteja se descabelando de chorar, de mostrar que ele nunca foi “flor que se cheire”?


Feminicídio foi inserido no Código Penal como uma qualificação do crime de homicídio em 2015 ( foto: Portal R7)




Ele vai responder que não sabe o motivo, pois nunca fez mal a ninguém. Diremos, gritando lá fora: Justiça! Não bastam 26 facadas, como no caso da professora Selene, de Luís Correia!! Ainda quer ganhar beijinhos de agradecimento? A defesa dirá que não queremos justiça e, sim, vingança! E que ali se trata de julgar um cara amoroso, pacífico, que por acaso te assassinou, porque tu provocaste.




O RÉU VAI DIZER QUE TE AMA

O mais incrível: o réu vai dizer que ainda te ama; que, se pudesse, estaria no teu lugar! Fará uma cara de bebê chorão, a ponto de o juiz ter o impulso de colocá-lo no colo. Mas se contém, para não dar bandeira de que deseja, já já, que o “pobre rapaz”; volte logo à convivência com os familiares, em especial com a filha ou filho, “raptad@” por tua família e sonegada à família dele. Estará muito evidente: a família dele deseja que tua(s) filha(s) ou filho não se afaste nem tenha rancor do pai, que, afinal, só fez perder momentaneamente a cabeça, e isso pode acontecer - como dirá o advogado de defesa - a qualquer um, seja alguém do júri, testemunha, advogado e até com o juiz.

Normal cometer feminicídio, segundo a defesa, que mal contém a alegria por estar com o bolso e a conta cheia de dinheiro. É só matar e pouco depois ser premiado pela defesa, por um promotor acomodado, atribulado, cansado e acanhado e por um juiz compreensivo quanto aos motivos de um cidadão de bem perder eventualmente a razão.

SAIA DESSA E RÁPIDO

Logo logo, teu assassino terá vida novinha em folha. E o advogado de defesa ligará a seu opulento escritório para perguntar: Qual é o próximo caso de feminicida que devo defender? Esse recado é para quem é prisioneira da violência doméstica: saia dessa e rápido! E nem avise! Avisar é correr risco muito maior! É triste saber que há autoridades com visão tão machista e cruel quanto a do feminicida. E uma empatia tão intensa com o réu que a maior probabilidade é de que este fará um breve passeio pela cadeia, pronto para outro casamento. E tu terás perdido tua vida.

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