O presidente Lula reagiu ao interesse dos Estados Unidos por
minerais críticos do Brasil e afirmou que 'ninguém põe a mão' nas riquezas
naturais brasileiras. Às vésperas do tarifaço, o governo americano sinalizou
que pode negociar a chantagem em troca de um acordo comercial para ter acesso
às substâncias estratégicas do Brasil.
Os elementos são considerados essenciais para uma vasta gama
de tecnologias modernas, defesa e transição energética global. Os minerais
críticos incluem elementos como lítio, nióbio, cobalto, níquel e terras raras,
fundamentais para a produção de baterias de carros elétricos, turbinas eólicas,
painéis solares, mísseis hipersônicos, semicondutores, chips para celulares e
computadores.
Em meio às ameaças de Trump pela taxação de 50%, o
encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel
Escobar, se reuniu com empresários do setor da mineração para passar a mensagem
do interesse americano pelo acordo de exploração.
Em entrevista à TV Globo, o diretor-presidente do Instituto
Brasileiro de Mineração, Raul Jungmann, disse que explicou ao diplomata
americano que a negociação tem que envolver o governo federal:
'Eles reafirmaram esse interesse mostrando realmente que eles
estão preocupados e que eles têm interesse. E nós sabemos que eles realmente
precisam de terras raras, tá certo? Eu respondi a eles que, como a Constituição
brasileira determina que o subsolo, leia-se, os minerais são da União, que essa
é uma pauta do governo, que nós estávamos preocupados em estreitar uma pauta e
fazer contrapartidas com o setor privado e também com o Congresso americano.
Então, evidentemente que pode vir a ser uma carta a mais na manga da negociação
para os brasileiros, mas isso, repito, depende do que o presidente e o nosso
negociador chave venham a propor'.
O presidente Donald Trump já forçou acordo de exploração de
terras raras na Ucrânia e tenta negociar algo similar com a China, que controla
90% da capacidade global de processamento desses minerais. De acordo com o
Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Brasil possui a segunda maior reserva
conhecida desses elementos no planeta, atrás apenas da China.
O Ministério de Minas e Energia afirma que a reserva
brasileira tem cerca de 21 milhões de toneladas, mas a produção nacional
corresponde a apenas 1% da mundial.
Em evento no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, o
presidente Lula reagiu à investida americana e sinalizou que não vai ceder os
minerais estratégicos aos Estados Unidos:
'Nós temos todo o nosso ouro para proteger, nós temos todos
os minerais ricos que vocês querem para proteger e aqui ninguém põe a mão. A
única coisa que eu peço ao governo americano é que respeite o povo brasileiro
como eu respeito o povo americano'.
O vice-presidente Geraldo Alckmin desconversou quando foi
perguntado sobre os novos interesses americanos:
'O setor minerário é um que nós recebemos, aliás, é um outro
setor que exporta para os Estados Unidos apenas 3%, mas importa em máquinas e
equipamentos mais de 20%, o que mostra, de novo, um enorme superávit na balança
comercial brasileira'.
O vice-presidente revelou que teve uma longa conversa com o
secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, sobre o tarifaço
imposto ao Brasil. Geraldo Alckmin disse que a videoconferência ocorreu no
sábado, mas não quis revelar detalhes da negociação:
'Olha, a conversa foi boa, tanto foi boa que foi quase 50
minutos e foi proveitosa. Agora, vamos aguardar, são conversas institucionais,
devem ser reservadas, uma conversa até longa, que entendo importante, colocando
todos os pontos e destacando o interesse do Brasil na negociação. O presidente
Lula tem orientado negociação, não ter contaminação política nem ideológica,
mas centrar na busca de solução para a questão comercial'.
Em entrevista à Rádio Itatiaia, Haddad afirmou que a família
Bolsonaro e seus aliados precisam “sair do caminho” e deixar o governo negociar
com os Estados Unidos:
'Nós estamos disponíveis, o tempo todo disponíveis. Agora,
precisa desobstruir esse canal e quem está obstruindo esse canal é a família
Bolsonaro e os seus apoiadores. Não é só a família Bolsonaro. Por isso que eu
faço um apelo de que as pessoas que têm amizade, respeito, admiração por essa
família podem fazer a diferença. Podem fazer a diferença, de sensibilizar,
olha, saiam do caminho, vocês não perderam uma eleição, saiam do caminho,
deixem o governo negociar. O governo assume bônus e ônus da negociação, mas
saiam do caminho, desimpeçam o caminho para que a mesa possa ser restabelecida
como estava 60 dias atrás'.
Ainda no discurso em Minas Gerais, Lula afirmou que o
presidente Donald Trump não quer negociar. O presidente fez uma analogia com o
jogo de truco, para reforçar que o Brasil não cederá às pressões do
republicano:
'Ele não quer conversar. Se ele quisesse conversar, ele
pegava o telefone e me ligava. Com todo mundo eu converso, mas ele não quis conversar.
Então, o que acontece? Ele nos deu até o dia 1º. Contar uma coisa para vocês:
eu não sou mineiro, mas eu sou bom de truco, e, se ele estiver trucando, ele
vai tomar um 6'.
