Tarifaço: Por que o Pix entrou na mira dos EUA?

Tarifaço: Por que o Pix entrou na mira dos EUA?

leandro santos
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 Foto: Arquivo/Cidadeverde.com

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O Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central, tornou-se um dos principais pontos entre Brasil e Estados Unidos na investigação comercial aberta pelo governo de Donald Trump.

Ao divulgar o resultado da investigação conduzida pela Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) afirmou que o Brasil adota práticas que prejudicam empresas americanas de pagamentos eletrônicos e serviços digitais.

Embora o documento não mencione nominalmente o Pix, o órgão afirma que o Brasil "prejudicou injustamente empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico" e adotou políticas que favorecem sua principal plataforma nacional.

"O Brasil também prejudicou injustamente empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem sua principal empresa nacional", escreveu o governo norte-americano no documento.

A acusação colocou o sistema brasileiro de pagamentos no centro de uma disputa que pode resultar em uma tarifa adicional de 25% sobre produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos.

A crítica aparece em um capítulo mais amplo da investigação dedicado ao comércio digital. No documento, o governo norte-americano também questiona decisões da Justiça brasileira contra plataformas de redes sociais dos Estados Unidos, incluindo remoção de conteúdos, bloqueio de perfis e aplicação de multas.

Na avaliação do USTR, essas medidas criam obstáculos para empresas americanas de tecnologia e serviços financeiros que atuam no mercado brasileiro.

Em agosto, quando a investigação foi instaurada, o governo brasileiro afirmou que o Pix visa à segurança do sistema financeiro, sem discriminar empresas estrangeiras.

A defesa brasileira destacou que a administração pelo Banco Central (BC) garante neutralidade ao sistema de pagamentos instantâneos. O documento ressaltou que outros bancos centrais, inclusive o Federal Reserve (Fed, Banco Central dos Estados Unidos), testam ferramentas parecidas.

O documento destaca que a relação comercial com os Estados Unidos é mutuamente benéfica e que a economia estadunidense apresenta um superávit histórico na troca comercial com o Brasil.

Cinco anos de PIX no Brasil

O debate sobre pagamentos eletrônicos ocorre justamente quando o Pix completa cinco anos como a principal ferramenta de transações do país.

Segundo dados do Banco Central, o sistema movimentou R$ 26,4 trilhões em 2024, valor equivalente a quase duas vezes o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no período. Até outubro de 2025, as transações somaram R$ 28 trilhões.

Hoje, cerca de 170 milhões de brasileiros e mais de 20 milhões de empresas utilizam o Pix, o que transformou a ferramenta em uma das maiores plataformas de pagamentos digitais do mundo.

Inicialmente criado para facilitar transferências instantâneas entre pessoas físicas, o sistema ganhou novas funções ao longo dos últimos anos.

Entre elas estão o Pix Cobrança, que concorre com boletos bancários, o Pix Automático, alternativa ao débito automático, e o Pix Parcelado, modalidade de crédito que permite ao pagador dividir um Pix em parcelas.

Para o Banco Central, a expansão da plataforma aumentou a inclusão financeira e ampliou a concorrência no sistema de pagamentos.

Embora o governo não cite empresas específicas, a referência a "serviços concorrentes de pagamento eletrônico" é interpretada por especialistas como uma menção a grupos que atuam em meios de pagamento digitais e cartões.

Nesse grupo estão gigantes como Visa, Mastercard, PayPal, Stripe e empresas de processamento de pagamentos que tradicionalmente lucravam com tarifas cobradas sobre transferências, cartões e intermediação financeira.

O avanço do Pix alterou esse cenário. Ao permitir transferências instantâneas com baixo custo e liquidação em segundos, o sistema reduziu a dependência de cartões para diversas operações do dia a dia.

Diferentemente de outros países, o Brasil optou por desenvolver uma infraestrutura pública de pagamentos sob coordenação do Banco Central, com participação obrigatória de grandes instituições financeiras. O modelo é frequentemente citado por reguladores internacionais como referência em inovação financeira.

A avaliação dos Estados Unidos, porém, é que essa estratégia pode ter criado vantagens competitivas para uma solução nacional em detrimento de fornecedores estrangeiros.

O governo brasileiro ainda não respondeu formalmente às conclusões da investigação. Até 15 de julho, os dois países terão espaço para negociações. Caso Washington mantenha seu entendimento de que as preocupações não foram resolvidas, o governo Trump poderá anunciar novas tarifas sobre produtos brasileiros.

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