Áudio vincula assassinato à cúpula política do Maranhão; entenda

Áudio vincula assassinato à cúpula política do Maranhão; entenda

leandro santos
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 Foto: PF

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Busca na casa de Cutrim resultou na apreensão de munições e 26 armas 

Uma gravação de 37 minutos que trata de um assassinato ocorrido em 2022 joga lenha na disputa que tomou conta do mundo político no Maranhão desde o rompimento dos grupos do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino e do governador Carlos Brandão (MDB).

O áudio, obtido pelo SBT News, foi usado pela Polícia Federal no pedido que levou Dino a ordenar, no último dia 16, a prisão domiciliar e o afastamento de Raimundo Cutrim, secretário de Assuntos Legislativos do governo Brandão.

O governador exonerou Cutrim após isso. A investigação corre sob sigilo.

Cutrim, que tem 72 anos de idade e é delegado aposentado da Polícia Federal, é figura conhecidíssima da política maranhense, tendo sido deputado estadual e secretário de Segurança Pública nos governos Roseana Sarney e José Reinaldo Tavares.

O áudio é do dia 14 de junho e abrange uma conversa de Cutrim com o pai do assassino confesso – Cezar Cutrim, dono de um pequeno jornal de São Luís, seu primo distante e autor da gravação.

No diálogo, o secretário instrui o pai a convencer o filho e a nora a mudar as declarações dadas às autoridades em Brasília.

A ideia seria “desdizer” declarações que Cutrim chama de delação e adotar uma nova “linha”, afastando qualquer incriminação contra um sobrinho do governador – Daniel Brandão, atual presidente do Tribunal de Contas do Estado.

“Eu acho que tem que ter uma linha. Esta linha, tu tem que dizer [a ele] a linha. Ele tem que dizer [para nós] o que ele disse na delação dele. Ele deve ter uma cópia. Se não tiver, ele sabe o que disse lá na delação dele. E tem que [dizer] o que é mentira. Olha, no caso do Daniel [sobrinho do governador], eu não vejo como o Daniel pessoalmente esteja envolvido nesse… [crime] porque não tá. Não tem como”, diz Cutrim ao pai do assassino confesso, na gravação obtida pelo SBT News.

No áudio, Cutrim diz ainda que a mulher do assassino teria sido paga pelos adversários para incriminar o sobrinho do governador e ainda atribui responsabilidades indiretas pelo crime a políticos do grupo ligado a Dino, entre eles o atual vice-governador e pré-candidato ao governo, Felipe Camarão (PT).

Ele não apresenta na conversa indicativos que embasem essas declarações.

O assassinato que agora volta à tona na política maranhense ocorreu em 19 de agosto de 2022 na área externa do edifício Tech Office, no bairro Ponta d’Areia, área nobre de São Luís.

O empresário João Bosco Pereira Oliveira Sobrinho, 46, foi morto a tiros por Gilbson César Soares Cutrim Júnior na porta de entrada do prédio.

Imagens de câmeras de monitoramento mostraram Gilbson, momentos antes do crime, conversando com Bosco, com um vereador da cidade e com o hoje presidente do TCE, à época secretário-chefe da Assessoria Especial do governo do tio.

A investigação original relacionou o homicídio a desentendimentos sobre comissão pelo destravamento de um pagamento de cerca de R$ 800 mil da Secretaria de Educação do estado. A pasta foi comandada até o começo de 2022 por Felipe Camarão, que no ano anterior havia nomeado João Bosco para um cargo de confiança.

Gilbson Júnior confessou o crime. Em depoimentos e no julgamento pelo júri sustentou que matou por desavença pessoal, sem citar políticos. Foi condenado em dezembro de 2024 a 13 anos de prisão.

Em 2025, porém, Gilbson e sua mulher, Lorena, passaram a adotar uma nova versão, afirmando que foram pagos durante todo esse tempo pelo entorno do governador para sustentarem a versão de mero desentendimento pessoal.

Devido à suspeita envolvendo governador de estado, esse novo ramo do caso foi parar no Superior Tribunal de Justiça, mas meses depois a defesa de Gilbson ingressou com um habeas corpus no STF afirmando que a apuração estava travada no STJ. O HC foi para Dino por meio de sorteio.

O condenado, que nesse período foi transferido de um presídio do Maranhão para Brasília, recebeu de Dino a progressão ao regime semiaberto. Ele não firmou delação, mas é considerado colaborador das investigações.

A conversa de Cutrim com o pai do assassino confesso traz também a indicação, por Cutrim, de um roteiro para o novo depoimento para a mulher de Gilbson.

Segundo o agora ex-secretário, ela deveria afirmar que ela estava em dificuldades financeiras quando foi procurada por terceiros interessados em que ela incriminasse o entorno do governador.

"Ela vai dizer que ele tava numa situação financeira, passando fome (...) e ela fez isso em estado de necessidade. Lembra que estado de necessidade não tem crime."

Aliados do ex-secretário ressaltam o fato de Lorena ter divulgado antes um vídeo em que disse que não era recebida pelo presidente do TCE e que avisava que “ia procurar o pessoal do outro lado” para ajudar o marido a ser solto.

No áudio, Cutrim afirma haver detectado pagamento de R$ 300 mil a ela e acusa uma série de políticos do grupo adversário de estarem por trás do suborno.

Ainda de acordo com a gravação de 37 minutos, Cutrim procura justificar eventuais repasses de Daniel Brandão a Gilbson como ajuda decorrente de uma relação antiga de amizade.

"Eles tinham uma amizade de muito tempo. Se ele pedisse alguma coisa, ele [Daniel] já dava", afirma, emendando: "Eu te dou dois, três mil, eu tô te comprando com isso?"

Em várias partes da conversa Cutrim frisa defender que Gilbson fale a verdade, anulando a suposta delação em Brasília que, segundo ele, foi comprada por seus adversários políticos.

A disputa política no Maranhão é o pano de fundo da decisão do governador de não renunciar ao cargo para disputar o Senado. Com isso, evitou que Camarão assumisse o governo.

Carlos Brandão apoia a candidatura de outro sobrinho, Orleans Brandão (MDB).

Dino ingressou no STF em 2024, mas mantém forte histórico político no Maranhão, estado que governou por dois mandatos (janeiro de 2015 a abril de 2022) e por onde foi deputado federal e senador.

Veja o que diz cada um dos citados

O advogado Berilo Freitas, que defende Raimundo Cutrim, disse que seu cliente não teve intuito de proteção de ninguém e que o objetivo era ter informações sobre o suposto dinheiro pago a Lorena por adversários políticos.

“E ele queria orientar no sentido de que ele falasse a verdade, que não inventasse mais essa história, porque essa é uma história inventada.”

A busca na casa de Cutrim resultou na apreensão de munições e 26 armas, algumas sem registro conforme um despacho tornado público por Dino nesta sexta-feira (24).

Sobre isso, a defesa disse que Cutrim atuou na PF por 44 anos, “foi secretário de Estado da Segurança Pública do Maranhão em duas oportunidades e é colecionador de armas regularmente cadastrado perante os órgãos competentes”.

Em vídeo recentemente divulgado em suas redes, Raimundo Cutrim chama Flávio Dino de inimigo pessoal e político e nega ter praticado obstrução à Justiça.

A assessoria do presidente do TCE-MA encaminhou nota anterior de Daniel Brandão em que ele “reforça que jamais praticou qualquer ato ilícito, repudiando de forma veemente as reiteradas tentativas de associar seu nome a fatos criminosos sem qualquer prova”.

“Também é importante destacar que se trata de um crime regularmente investigado pela Polícia Civil, submetido ao Poder Judiciário e que resultou na condenação do autor confesso, com início do cumprimento da pena. Somente anos depois passaram a surgir novas versões sobre os fatos, acompanhadas de acusações sem qualquer respaldo nas provas que fundamentaram a condenação”.

Enviou também boletim de ocorrência em que ele afirma sofrer tentativas de extorsão e intimidação por parte de familiares de Gilbson.

Ele não se manifestou, porém, sobre o que o levou a estar no local do encontro onde ocorreu o crime, em 2022.

A defesa de Gilbson foi procurada, mas disse que não pode se manifestar em razão do sigilo das investigações.

Em nota, o governador Carlos Brandão afirmou ter cumprido integralmente a decisão de Dino e exonerado Cutrim. “Quanto aos demais questionamentos relacionados ao caso, o governo do Estado não fará comentários, uma vez que o procedimento tramita sob sigilo”.

O gabinete de Flávio Dino disse que o ministro não trata sobre assuntos políticos, “dos quais está afastado desde fevereiro de 2024” e, sobre as críticas de que deveria se declarar impedido nesse caso, afirmou que “as hipóteses de impedimento estão dispostas no Código de Processo Penal” e que “não houve tal arguição nos autos”.

Também em nota, a assessoria do vice-governador Felipe Camarão disse que ele “nunca realizou pagamentos à família do citado e nem possui relação com o sr. João Bosco.”

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