A Polícia Civil do Piauí desarticulou, nesta sexta-feira (10), um grupo investigado por estelionato qualificado por fraude eletrônica, associação criminosa e lavagem de dinheiro que teria movimentado cerca de R$ 100 milhões em apenas dois anos. A operação teve como principal alvo a empresa DF Trade, seu proprietário, o trader Douglas Fonseca, e gerentes do grupo.
Ao todo, a Justiça expediu 12 mandados de prisão, dos quais 10 foram cumpridos. Dois investigados seguem foragidos. Também foram cumpridos quase 20 mandados de busca e apreensão.
Além das prisões, a Justiça determinou a suspensão das atividades da empresa, o bloqueio de contas bancárias, o sequestro de imóveis e a apreensão de bens de luxo para garantir eventual ressarcimento das vítimas.
Durante a operação, foram apreendidos veículos de luxo, além de relógios de luxo, armas de fogo, documentos, contratos e outros materiais que serão analisados pela investigação.
Segundo o superintendente de Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública (SSP), delegado Matheus Zanatta, o patrimônio apreendido servirá para garantir a devolução dos valores às vítimas.
"Também tivemos bloqueios de contas judiciais e apreensão de vários bens, justamente para garantir a restituição das vítimas. Foram apreendidos relógios de luxo, carros importados, como Porsche e Discovery, entre outros veículos", afirmou.
Promessa de lucro de 10% ao mês
De acordo com a Polícia Civil, o grupo atraía investidores prometendo rentabilidade de até 10% ao mês, percentual considerado incompatível com o mercado financeiro.
Segundo Matheus Zanatta, embora o esquema apresentasse características semelhantes às de uma pirâmide financeira, a estrutura utilizava operações de trade como fachada.
"Esse grupo prometia um retorno de 10% ao mês. É como se fosse uma pirâmide financeira, mas não era uma pirâmide financeira. Tinha o mesmo modus operandi. Eles operavam na forma de trade."
Durante as investigações, a Polícia Civil solicitou informações à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e constatou que a empresa não possuía autorização para atuar no mercado de capitais.
"Eles não tinham essa autorização. Inclusive já existem processos administrativos na CVM contra esse grupo da DF Trade", acrescentou Zanatta.
Empresa criava falsa aparência de investimento
O coordenador-geral da Força Estadual Integrada de Segurança Pública (FEISP), delegado Felipe Bonavides, explicou que a empresa se apresentava como especialista em investimentos para convencer pessoas a aplicar dinheiro no negócio.
"Eles faziam anúncios, especialmente em redes sociais, mostrando valores exorbitantes. A promessa era de ganhos que poderiam chegar a 10% ao mês. Isso atraía as vítimas, que faziam aportes financeiros acreditando estar investindo em uma empresa especializada."
Segundo o delegado, a empresa fazia os clientes acreditarem que aplicava os recursos diretamente no mercado financeiro.
"A mensagem passada era de que a aplicação era feita diretamente no mercado de capitais, quando, na verdade, não era. Era uma empresa apenas para atrair pessoas. Eles não tinham validação da Comissão de Valores Mobiliários nem autorização para atuar dentro do Sistema Financeiro Nacional."
Bonavides afirmou que, com o tempo, o esquema entrou em colapso.
"As pessoas foram injetando seu dinheiro e chegou um ponto em que eles não conseguiam mais pagar, porque o pagamento era via captação de novos recursos."
Ostentação nas redes sociais atraía investidores
Outro aspecto destacado pela investigação foi o uso das redes sociais como ferramenta para conquistar a confiança das vítimas.
Segundo Matheus Zanatta, Douglas Fonseca ostentava carros importados, viagens internacionais, relógios de luxo e aeronaves para transmitir credibilidade.
"O Douglas usava muito as redes sociais para ostentar carros de luxo, Ferrari, Porsche, aviões, viagens e relógios justamente para fazer a captação dos investidores."
Durante a coletiva, o delegado afirmou ainda que boa parte dessa ostentação era fabricada.
"Eram fotos com aviões que ele realmente não tinha, porque ele ia ao aeroporto para tirar fotos e enviar para as pessoas."
A Polícia Civil também apontou que o sistema utilizado para mostrar os supostos rendimentos aos clientes era manipulado.
"O sistema interno em que ele dizia que operava era falso. Todos aqueles ganhos que ele mostrava eram produzidos a partir de um sistema totalmente controlado e manipulado por ele, que podia informar os ganhos que faziam as pessoas se encantarem."
Segundo Zanatta, a falsa imagem de sucesso levava famílias inteiras a investir suas economias.
"Todo esse contexto de estilo de vida forjado e também com ganhos forjados em sistemas manipulados faziam com que as pessoas acreditassem no projeto e colocassem a economia de toda a família."
Coaf aponta movimentação de R$ 100 milhões
De acordo com o delegado Roni Silveira, relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que o grupo movimentou aproximadamente R$ 100 milhões nos últimos dois anos.
"Dados recebidos do Coaf apontam que o grupo teria movimentado em dois anos aproximadamente R$ 100 milhões."
Segundo ele, a investigação ainda analisa dados bancários e fiscais, o que pode ampliar esse valor.
Roni Silveira afirmou ainda que, apesar de o grupo afirmar nas redes sociais que atuava havia cinco ou sete anos, os registros obtidos pela polícia apontam atuação efetiva de aproximadamente dois anos.
"Para dar credibilidade, eles se vendiam como atuantes há cinco ou sete anos, quando, na verdade, os principais registros apontam para aproximadamente dois anos."
Polícia apura possível atuação em São Paulo
A Polícia Civil do Piauí também mantém contato com autoridades paulistas para verificar notícias de investigações envolvendo Douglas Fonseca naquele estado.
"Há notícias de que existam investigações e processos criminais em São Paulo. Estamos dialogando com a polícia daquele estado."
Questionado sobre declarações feitas pelo trader nas redes sociais de que possuiria recursos no exterior e ligações com grandes investidores, Roni Silveira afirmou que não há qualquer comprovação.
"Não tem nenhuma evidência apontando nesse sentido. Ele fala muitas coisas na rede social dele. A rede social aceita a plantação de muitas coisas. Ele fala que tem dinheiro no Panamá, nos Estados Unidos e em vários locais fora do país justamente para convencer quem não conhece o mercado financeiro."
Pelo menos 70 vítimas já foram identificadas
A Polícia Civil estima que cerca de 70 pessoas tenham sido vítimas do grupo apenas em Teresina, mas acredita que esse número aumentará nos próximos dias. "Seria precipitado dizer um número definitivo, porque acredito que esse número vai aumentar, e muito."
Segundo Roni Silveira, foram justamente as denúncias das vítimas que deram início às investigações.
"As vítimas começaram a procurar a polícia dizendo que investiram dinheiro com esse indivíduo que fazia tanta ostentação e não estavam recebendo."
Polícia orienta vítimas a registrar boletim de ocorrência
O superintendente de Defesa e Proteção ao Consumidor (Sudecon-SSP), Júnior Macedo, informou que o órgão atuará em conjunto com a Polícia Civil para atender consumidores lesados.
Segundo ele, denúncias podem ser registradas pelos canais da Sudecon, disponíveis no portal da Secretaria de Segurança Pública.
Ao final da coletiva, Matheus Zanatta fez um apelo para que todas as vítimas formalizem as denúncias.
"Nós verificamos que tem muitas vítimas que ainda não registraram boletim de ocorrência com a falsa promessa ou acreditando que o Douglas iria fazer o pagamento."
O delegado orientou que os boletins de ocorrência podem ser registrados em qualquer delegacia, diretamente na Secretaria de Segurança Pública ou pelo WhatsApp 0800 086 0190.
As investigações continuam para identificar novas vítimas, localizar outros bens ligados ao grupo, analisar a documentação apreendida durante a operação e localizar os dois investigados que permanecem foragidos.









