Rua dos Negros e outros nomes revelam a história da formação de Teresina

Rua dos Negros e outros nomes revelam a história da formação de Teresina

leandro santos
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Antes de receberem os nomes atuais, as ruas de Teresina já registravam parte da história da cidade. Rua Grande, Rua Bela, Rua dos Negros, Rua do Fio e Rua da Glória aparecem em mapas e documentos antigos e ajudam a compreender como era a capital durante os primeiros anos de formação.

Planejada para ser a nova capital do Piauí, Teresina teve ruas, quadras, igrejas e prédios públicos definidos no projeto urbano. Mas a cidade que existia no papel precisou ser construída por trabalhadores, entre eles, pessoas escravizadas que participaram das obras.

Um dos endereços que ajudam a contar essa história é a atual Rua Eliseu Martins. Nos primeiros mapas da capital, o local aparece como Rua dos Negros.

A denominação está relacionada à concentração de homens escravizados que trabalhavam nas obras de Teresina.

“A cidade de Teresina foi construída por pessoas escravizadas, só que essas pessoas não eram bem-vistas, bem-recebidas naquela área mais central, ali da Igreja do Amparo. Então, essas pessoas tiveram que ficar em lugares um pouco mais afastados daquela região mais central e acabaram se concentrando no que foi chamado, exatamente por isso, de Rua dos Negros”, explicou o historiador Diego Parente.

Escravizados nas obras da nova capital

Uma relação de trabalhadores das obras do Quartel de Primeira Linha, de março de 1859, registra nomes como Carlos, Ernesto, Simplício, João e Manuel. Os documentos identificavam funções como pedreiros, operários e serventes e, em alguns casos, indicavam a condição de escravizado.

“Uma parte dos escravizados que construíram Teresina era de fazendas nacionais, fazendas que pertenciam ao governo, digamos assim. E uma outra parte era de pessoas que eram cedidas por seus senhores. Eles recebiam apenas alimentação, inclusive, uma alimentação insuficiente. Há registros históricos e relatórios acerca disso. Mas quem recebia o dinheiro por esse trabalho eram os proprietários desses escravizados”, afirmou Diego Parente.

Entre os trabalhadores negros que deixaram registros na história da capital está Sebastião Mendes de Sousa, piauiense, escultor e autor das portas da Igreja de São Benedito.

As portas de madeira preservam elementos esculpidos pelo artista, como flores, folhas e relevos. Sebastião Mendes estudou arte na Corte no século XIX e retornou ao Piauí.

A trajetória do escultor foi pesquisada pelos historiadores Francisco Felipe Cunha Paz e Antônio Agenobre Quede Lemos. Em 2021, os dois publicaram o livro O Suicídio do Escultor, resultado de pesquisas em jornais e documentos históricos.

“Então, ele começa seus estudos ali em 1870, dois anos depois da aprovação da Bolsa e ali quatro anos antes da construção da igreja de São Benedito”, afirmou Francisco Felipe Cunha Paz.

A trajetória de Sebastião Mendes

Foto: Benonias Cardoso/Cidadeverde.com

Durante anos, a morte do escultor ganhou mais espaço nas narrativas sobre sua vida. Uma versão popular relacionava o episódio a um amor impossível e a um suicídio em Teresina.

A pesquisa documental encontrou outros elementos sobre a trajetória do artista e também apontou para experiências de racismo enfrentadas por ele.

“Fundamental pensar que, apesar de ele ser, entre outras figuras racializadas, entre outros sujeitos, homens e mulheres negras ali no século XIX, na capital do Piauí, totalmente desconhecidos, ele tem algum conhecimento? Eu acho que ainda é muito pouco e esse pouco tem duas grandes razões de ser. O fato dele ser um artista negro ainda atrapalha a sua imagem pública, atrapalha no sentido de como ele é visto e foi valorado ao longo dos anos”, afirmou o historiador.

Para Francisco Felipe, a história de Sebastião Mendes também precisa ser relacionada à própria Igreja de São Benedito.

“Ali você silencia talvez a coisa mais significativa da gente ter hoje, do lado do Palácio de Governo, um templo dedicado a um santo negro, erguido com mão de obra negra, por uma irmandade negra”.

Antes de ser sede do governo

A poucos metros da Igreja de São Benedito está o Palácio de Karnak, atual sede do Governo do Piauí. O espaço, porém, teve outras funções antes de se tornar sede do poder estadual.

No século XIX, a região era ocupada por chácaras. O local também foi residência do Barão de Castelo Branco, por volta de 1891, e posteriormente recebeu outras atividades.

“Nesse ponto onde a gente está, onde se encontra o Palácio de Karnak, havia várias chácaras, que, em Portugal, também são conhecidas como quintas. Nessa região do entorno do Palácio de Karnak, havia várias chácaras na redondeza. Estamos falando de uma Teresina do século XIX. Então, aqui, já funcionou também a residência de um barão”, explicou o guia turístico Caio Albuquerque.

Antes de se tornar sede do governo, o prédio também funcionou como residência particular e como o Instituto Karnak, um educandário que oferecia formação de nível médio e militar.

Segundo Caio Albuquerque, o nome Karnak foi dado por Gabriel Ferreira em referência ao antigo Egito.

O prédio ainda preserva espaços associados ao período em que foi residência do barão. Uma das salas era utilizada para receber autoridades políticas e militares.

“Inclusive essa sala que a gente se encontra aqui, era uma sala onde o barão recebia autoridades daquela época, porque o barão também dava muitas festas aqui, quando ele tinha aqui como residência. No hall de entrada funcionava um grande salão, que hoje é o Salão Branco, então funcionava festas, ele dava festas aqui no Palácio e essa sala aqui é onde ele recebia autoridades políticas e militares”.

Foto: Benonias Cardoso/Cidadeverde.com

A influência da Loja Maçônica Caridade II

Outro espaço ligado à formação política e intelectual da capital é a Loja Maçônica Caridade II, fundada em 1858, quando Teresina tinha apenas seis anos.

Livros e registros da instituição preservam nomes que também aparecem na história política do Piauí, como Álvaro Mendes, Antonino Freire, Miguel Rosa e Matias Olímpio.

"Só para você ter uma ideia, o primeiro intendente eleito de Teresina, que representa hoje o prefeito, era membro desta oficina. Ele foi eleito com 835 votos, e só nessa loja havia 85 membros. Só podia ser maçom quem soubesse ler e escrever. Consequentemente, mais de 10% dos eleitores da época pertenciam à nossa loja. Então, aqui, nós tivemos Abdias Neves, nós tivemos Matias Olímpio, nós tivemos Álvaro Mendes. Álvaro Mendes, ao tempo em que era governador, era venerável desta loja”, afirmou Francisco José, filósofo e historiador.

A loja também teve entre seus membros o primeiro pároco de Teresina, Mamede de Antônio de Lima.

“Um fato muito interessante, que é muito representativo para Teresina, é que o primeiro vigário de Teresina, o primeiro pároco, Mamede de Antônio de Lima, foi maçom desta loja, foi mestre maçom desta loja, até antes de acontecer a questão religiosa, então os padres integravam também a loja maçom”.

O espaço também registra episódios relacionados à política e à sociedade da época. Um deles ocorreu durante uma sessão presidida pelo médico e militar Antônio Almeida Gaioso. Ele morreu no local enquanto exercia a função de venerável e estava prestes a ser indicado para o cargo de governador do Piauí.

Foto: reprodução/Tv Cidade Verde 

Uma história construída por diferentes grupos

Os registros da formação de Teresina preservam de maneira desigual as pessoas que participaram da construção da capital. Alguns deixaram retratos, cargos e assinaturas. Outros aparecem apenas pelo primeiro nome ou pela condição registrada nos documentos.

Para Francisco Felipe Cunha Paz, recuperar essas trajetórias é também ampliar a forma como a história da cidade é contada.

“Na mesma condição que foi Seraphite Catânia ou outros sujeitos não negros, não indígenas. Nunca foi sobre revide, nunca foi sobre apagamento, é sobre fazer com que as pessoas em si hoje tenham condições de não mais apenas consumir uma história dedicada a sujeitos, homens e mulheres brancas, da elite, letrados ou considerados letrados também, como se isso se resumisse à nossa experiência como povo”.

Teresina nasceu de um projeto urbano, mas sua construção envolveu diferentes grupos sociais. Trabalhadores livres e escravizados participaram das obras, enquanto políticos, religiosos, intelectuais, artistas e integrantes de instituições como a Maçonaria ajudaram a formar a vida social e política da nova capital.

Os antigos nomes das ruas, os documentos das obras, as portas da Igreja de São Benedito, os registros da Loja Caridade II e os espaços do Palácio de Karnak são parte das marcas deixadas por essas pessoas.

Conhecer esses personagens permite ampliar a compreensão sobre a formação de Teresina e sobre quem participou da construção da cidade que existe hoje.

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