Durante muito tempo, fabricar e utilizar ferramentas foi considerado um daqueles comportamentos capazes de estabelecer uma fronteira relativamente segura entre seres humanos e outros animais. A imagem do ancestral humano segurando uma pedra nas mãos, utilizando-a para quebrar, cortar ou modificar alguma coisa, tornou-se inclusive um símbolo da própria evolução da humanidade. Nas últimas décadas, porém, essa fronteira ficou cada vez menos nítida. Chimpanzés, orangotangos, macacos-prego e até algumas populações de macacos do gênero Macaca demonstraram que utilizar objetos para resolver problemas está longe de ser uma exclusividade humana.
Poucos lugares do mundo ilustram essa história tão bem quanto o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. Conhecida internacionalmente por seus sítios arqueológicos e pelas pinturas rupestres que documentam parte da história das populações humanas das Américas, a região abriga também outra história tecnológica, protagonizada não por seres humanos, mas pelos macacos-prego (Sapajus libidinosus).
Esses animais transformaram a Serra da Capivara em uma espécie de laboratório natural para pesquisadores interessados em compreender como surgem ferramentas, como os animais aprendem a utilizá-las e, principalmente, como determinados comportamentos podem permanecer em uma população durante muitas gerações.
Imagine que você queira abrir uma castanha extremamente dura, mas não tenha força suficiente nos dentes. Uma alternativa seria procurar uma pedra, colocá-la sobre uma superfície resistente e golpeá-la com outra pedra. Para nós, a solução parece óbvia. Mas ela exige uma sequência interessante de decisões: escolher um objeto apropriado, transportá-lo, posicionar o alimento e controlar a intensidade e a direção dos golpes. Macacos-prego fazem exatamente isso.
Na Serra da Capivara, entretanto, o repertório vai muito além de quebrar castanhas. Pesquisadores já observaram esses animais utilizando pedras como martelos para abrir frutos e sementes, quebrar madeira e rochas em busca de pequenos animais e soltar o solo durante escavações. Também podem empregar pedras como uma espécie de enxada para remover terra. Varetas, por sua vez, funcionam como sondas para alcançar água, mel, insetos e pequenos vertebrados escondidos em cavidades. Há situações ainda mais surpreendentes.
Alguns macacos utilizam pedras para escavar raízes e tubérculos ou alcançar aranhas que vivem em buracos subterrâneos. Estudos realizados no parque registraram o emprego de ferramentas de pedra na obtenção de raízes de plantas e de aranhas-de-alçapão. O repertório é tão amplo que os macacos-prego da Serra da Capivara são considerados uma das populações de primatas não humanos com maior diversidade conhecida de comportamentos envolvendo ferramentas de pedra. Análises microscópicas das próprias pedras utilizadas pelos animais conseguem, inclusive, identificar diferentes marcas de desgaste e resíduos associados às atividades realizadas.
Em outras palavras, não estamos simplesmente diante de um macaco ocasionalmente batendo uma pedra em outra. Existe uma verdadeira diversidade funcional de instrumentos. Utilizar uma ferramenta eficientemente não significa simplesmente segurá-la. Ao quebrar alimentos duros, por exemplo, o animal precisa escolher uma pedra suficientemente pesada para produzir impacto, mas que não seja tão pesada que torne seu transporte e manipulação excessivamente difíceis. Precisa ainda encontrar uma superfície apropriada para funcionar como bigorna e ajustar seus movimentos às características do alimento.
Comparações entre macacos-prego e chimpanzés demonstram que ambos conseguem perceber propriedades físicas importantes das ferramentas. A escolha do martelo pode variar de acordo com a resistência do alimento e com a distância pela qual a pedra precisa ser transportada. Os animais também ajustam a força aplicada durante os golpes.Existe, portanto, uma combinação de anatomia, experiência, capacidade cognitiva e condições ambientais por trás desses comportamentos.
E ninguém nasce sabendo fazer tudo isso perfeitamente. Animais jovens observam indivíduos mais experientes, manipulam pedras, experimentam movimentos e gradualmente melhoram suas habilidades. Isso introduz uma dimensão particularmente fascinante na história: a aprendizagem social. Podemos falar em cultura entre macacos?
A palavra “cultura” normalmente nos faz pensar em linguagem, religião, música, culinária, festas ou conhecimentos transmitidos entre seres humanos. Em estudos de comportamento animal, porém, o conceito pode ser empregado de maneira mais específica. Quando uma determinada inovação comportamental é aprendida socialmente e persiste dentro de um grupo, passando entre indivíduos e gerações, os pesquisadores podem falar em uma tradição cultural.
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Isso ajuda a explicar por que populações da mesma espécie, vivendo em locais diferentes, podem apresentar repertórios comportamentais distintos. Não basta possuir cérebro, mãos e capacidade física para utilizar uma ferramenta. É importante que exista também a oportunidade ambiental, que alguém descubra determinada solução e que outros indivíduos tenham condições de aprender o comportamento.
Uma revisão sobre cultura material em primatas propôs justamente que três componentes interagem na origem e manutenção dessas tecnologias: ambiente, sociabilidade e cognição. Curiosamente, a disponibilidade de oportunidades ambientais parece muitas vezes ser mais importante do que simplesmente uma situação de necessidade alimentar.
Isso significa que uma pedra disponível no lugar certo, um alimento que possa ser explorado com ela, capacidade de manipulação e possibilidade de observar outros indivíduos podem, juntos, criar as condições para o aparecimento e a perpetuação de uma tradição tecnológica.
É aqui que os macacos-prego do Piauí se tornam ainda mais extraordinários. Ferramentas de pedra possuem uma característica que varetas e folhas normalmente não apresentam: elas podem permanecer preservadas no ambiente durante milhares de anos. E isso permite aplicar aos macacos algumas das técnicas normalmente utilizadas pelos arqueólogos para investigar o passado humano. Pesquisadores realizaram escavações em um sítio utilizado pelos macacos-prego na Serra da Capivara. Nas diferentes camadas do solo encontraram pedras com características compatíveis com seu uso como ferramentas. Técnicas de datação mostraram que algumas possuíam entre aproximadamente 2.400 e 3.000 anos.
Mais interessante ainda: as ferramentas não permaneceram iguais durante todo esse período. As características das pedras e suas marcas de utilização mudaram ao longo do tempo. Os pesquisadores identificaram transformações no processamento dos alimentos entre aproximadamente 2.400 e 300 anos atrás e novamente entre cerca de 100 anos atrás e os dias atuais. O trabalho, publicado em 2019 na Nature Ecology & Evolution, apresentou a primeira evidência de mudanças de longo prazo no uso de ferramentas fora da linhagem humana.
Isso não significa que os macacos tenham passado por uma “Idade da Pedra” semelhante à humana. A comparação seria exagerada. Mas significa algo cientificamente muito importante: uma espécie não humana pode produzir um registro arqueológico de seu próprio comportamento tecnológico. A arqueologia, portanto, deixa de investigar exclusivamente seres humanos. Quando arqueólogos precisam perguntar: quem fez esta pedra?
Há outra consequência surpreendente. Quando macacos batem pedras umas contra as outras, podem produzir lascas. Algumas apresentam características semelhantes às encontradas em artefatos arqueológicos associados aos primeiros hominínios. Isso cria um problema interessante.
Encontrar uma pedra lascada em um sítio arqueológico não significa automaticamente que alguém teve a intenção de produzir uma ferramenta cortante.
Experimentos e observações com macacos-prego e macacos-de-cauda-longa demonstraram que atividades de percussão podem gerar acidentalmente fragmentos de pedra com características semelhantes às de alguns artefatos primitivos.
Naturalmente, isso não significa que todas as ferramentas atribuídas aos ancestrais humanos tenham sido produzidas por macacos. O que essas pesquisas mostram é que arqueólogos precisam considerar com cuidado o contexto, as marcas de uso, os padrões de fratura e outros vestígios antes de atribuir intencionalidade à produção de determinado objeto. Os macacos acabam, assim, ajudando os cientistas a interpretar melhor o nosso próprio passado.
A capacidade de utilizar ferramentas aparece em diferentes linhagens de primatas. Chimpanzés constituem provavelmente o exemplo mais conhecido. Algumas populações utilizam pedras para quebrar frutos de casca dura, enquanto outras empregam gravetos para retirar cupins de seus ninhos. Orangotangos também podem utilizar instrumentos vegetais para obter alimentos. Entre os macacos-de-cauda-longa do Sudeste Asiático existem populações que utilizam pedras para abrir moluscos, ostras e outros alimentos protegidos por estruturas duras.
Em uma população estudada na ilha de Koram, na Tailândia, por exemplo, esses macacos utilizam pedras para quebrar invertebrados marinhos encontrados durante a maré baixa. Um estudo publicado em agosto de 2026 mostrou ainda que nem todos os indivíduos do grupo utilizam ferramentas e encontrou diferenças entre machos e fêmeas na frequência desse comportamento.
Também há diferenças impressionantes mesmo entre espécies próximas. Durante muito tempo, o uso habitual de pedras foi associado principalmente aos macacos-prego robustos do gênero Sapajus. Posteriormente, pesquisadores encontraram uma população de macacos-prego-de-cara-branca do gênero Cebus, no Panamá, utilizando habitualmente martelos e bigornas de pedra para acessar sementes, caranguejos, caramujos e outros alimentos. A tecnologia, portanto, não apareceu apenas uma vez entre os primatas. Soluções semelhantes podem ter surgido independentemente em diferentes linhagens evolutivas.
É tentador imaginar que animais começam a utilizar ferramentas simplesmente porque estão com fome e precisam desesperadamente obter alimentos inacessíveis. A realidade parece ser mais interessante. Na Serra da Capivara, pesquisadores testaram a chamada hipótese da necessidade, segundo a qual ferramentas seriam utilizadas principalmente quando outros alimentos estivessem escassos. Os resultados obtidos com ferramentas empregadas para escavação não sustentaram essa explicação de maneira simples. O ambiente não funciona apenas impondo dificuldades. Ele também oferece oportunidades.
É preciso haver pedras adequadas, alimentos que possam ser processados, locais apropriados para servir como bigornas e animais capazes de explorar essas possibilidades. Depois que determinado comportamento aparece, a aprendizagem social pode contribuir para sua permanência.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente “por que os macacos precisam de ferramentas?”, mas “quais condições permitem que uma população desenvolva e mantenha uma tradição tecnológica?” Existe algo particularmente simbólico nessa história.
A Serra da Capivara é mundialmente conhecida porque preserva registros extraordinários da presença e da cultura humanas no continente americano. Suas paredes rochosas guardam pinturas produzidas por pessoas que viveram naquele território em épocas remotas. Agora sabemos que, praticamente ao lado desse patrimônio arqueológico humano, existe outro registro de comportamento acumulado ao longo do tempo.
Macacos-prego continuam batendo pedras, quebrando alimentos, escavando o solo e utilizando varetas. Ao fazerem isso, deixam marcas sobre rochas, abandonam martelos e bigornas e produzem vestígios que podem permanecer enterrados durante séculos ou milênios. É uma arqueologia sem seres humanos.
E talvez seja exatamente por isso que esses animais sejam tão importantes para compreendermos a nós mesmos. Estudar ferramentas utilizadas por macacos não diminui a singularidade tecnológica humana. Pelo contrário. Permite identificar quais componentes dessa história possuem raízes evolutivas muito mais antigas e quais transformações fizeram com que, em nossa linhagem, ferramentas simples acabassem dando origem a lanças, machados, máquinas, computadores e sondas espaciais.
Entre uma pedra erguida por um macaco-prego na Caatinga piauiense e um instrumento construído por seres humanos existe, evidentemente, uma distância enorme. Mas há também uma pergunta evolutiva ligando os dois: como um animal percebe que pode transformar um objeto do ambiente em uma extensão de seu próprio corpo para resolver um problema? Na Serra da Capivara, os macacos-prego vêm oferecendo respostas a essa pergunta há pelo menos três mil anos.
Até o nosso próximo encontro.