A possibilidade de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras alcançou um nível de criticidade. É o que aponta um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) enviado à Presidência da República, ao TSE e o Ministério da Justiça no fim de agosto.
As informações foram reveladas pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, e confirmadas pelo Globo, e dão conta de uma tendência de escalada de pressão sobre o Brasil. O documento alerta ainda para uma intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos Estados Unidos sobre o país.
Segundo a Abin, o presidente Donald Trump tem por objetivo reduzir a influência de potências rivais dos Estados Unidos na América Latina, negando a elas o acesso a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região.
Na avaliação do analista político Melillo Dinis, Trump receia as relações do Brasil com China e Europa.
"Não é de hoje que o governo norte-americano sob Trump tem tentado intervir nas eleições de toda a América do Sul, de toda a América Latina. Isso decorre de um projeto de poder que se estabelece dentro dessa região, mas também em relação a outros atores da geopolítica, como a China e como a Europa. De todo modo, essa pressão é indevida, é incorreta e acaba por gerar, se bem avaliada por todos os que estão diante do cenário de pretensão eleitoral, a repercussão disso na decisão sobre o voto."
Para a Abin, o Brasil seria de destaque nesse contexto por ter um governo com maior disposição política e meios de defender a autonomia estratégica ante pressões norte-americanas. Por isso, teria virado alvo de retaliações.
A agência cita, por exemplo, sanções dadas a brasileiros e empresas com sede no Brasil por supostos vínculos com redes de lavagem de dinheiro associadas ao PCC e avalia que a interferência dos Estados Unidos ocorre de modo gradual, combinado e adaptativo. Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, é citado no documento. A atuação dele é considerada como um componente ideológico que busca influenciar e reorientar a política externa dos países da América Latina.
Até o momento, o governo não se posicionou oficialmente sobre o relatório da Abin, mas na última quarta-feira, durante evento em Ceilândia, no Distrito Federal, o presidente Lula chegou a afirmar que pretende se reunir com Trump durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, que acontece em Nova Iorque na próxima semana, para pedir que o presidente dos Estados Unidos não interfira nas eleições brasileiras.