Nas avaliações feitas por especialistas acerca do resultado das eleições presidenciais no 1º turno- em que o Presidente Lula teve a liderança escapando das mãos em favor de Flávio Bolsonaro, que vai à etapa final como primeiro colocado-, dá-se como certa a constatação de que a população brasileira tem uma percepção pouco positiva sobre a economia, com destaque focado na sensação de que os preços dos alimentos nos supermercados os desfavorecem.
Isso fica evidente na Sondagem do Mercado de Trabalho da Fundação Getúlio Vargas, ontem divulgada, em que, quando questionadas sobre quais despesas que mais impactam seus orçamentos domésticos, as famílias indicam, com realce, a compra dos alimentos, que é mencionada por 81,9% dos entrevistados. As famílias com ganhos mensais de até dois salários mínimos foram as que mais mencionaram esse tópico, apontando um impacto de até 87% nos seus orçamentos.
Segundo os analistas, a preocupação maior dos trabalhadores de baixa renda em relação aos gastos com alimentos é maior nessas faixas inferiores de ganho salarial, pois o comprometimento dos rendimentos com alimentos rondam entre 22% a 25%, enquanto nas faixas mais elevadas esses gastos vão caindo até 18%.
A própria pesquisa observa que neste momento está havendo um acomodação nos preços de alimentos, que já não sobem como subiram de modo expressivo entre 2019 e 2022, na incidência dos problemas causados pela pandemia da Covid, mas como os valores salariais não têm crescido, o aperto permanece. Nesse período, que envolveu mais de 2 anos da pandemia, os preços dos alimentos cresceram 60,8%. A variação desse ítem é quase uma vez e meia a alta de 42,7% do Índice de Prços ao Consumidor Amplo (IPCA) nesses mesmos seis anos.
Para que se tenha um ideia mais clara desses problema, a maior e mais forte incidência desses aumentos sobre alimentos seu deu entre abril de 2020 e e o fim de 2022, com alta de 42,4% sobre comida nesse período.
Já entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, já sob o Governo Lula, as variações foram de 12,9%, para uma variação do IPCA de 17,9%, respectivamente, conforme atestam pesquisas do IBGE e FGV. O rendimento real, médio, dos trabalhadores(já descontada a inflação) recebeu uma elevação de 9,5%, entre abril de 2020 e julho de 2026.
Isso significa mais ou menos dizer o seguinte: a economia vai bem, não há desemprego que preocupe, nem inflação que assuste, mas como não está havendo aumento da renda, mesmo que os preços de alimentos caiam, os trabalhoares de baixa renda permanecem tendo dificuldade de liberar seus orçamentos para outras compras.
O quadro de uma percepção negativa é resultado de uma combinação de elementos que reúnem crescimento econômico em cima de uma base depreciada da economia, um processo que vem desde 2015/2026, e que se acentuou com a pandemia e por vários desacertos trazidos pelo governo durante o período de Jair Bolsonaro na Presidência.
Não é sem razão que as inciativas de marketing das campanhas eleitorais no 1º turno das eleições elegeram essa percepção de piora da economia, em razão do comprometimento do orçamento familair com alimentos, trazendo à tona uma visão não muito esclarecedora e real sobre custo de vida, esse alta-estar da população. O que se viu foi mais o resultado de uma troca de acusações entre candidatos do que na apresentação de caminhos a serem seguidos e que sejam capazes de solucionar o problema.
Às vésperas da eleição no primeiro turno, o próprio Presidente Lula mostrou preocupação com o tema e até reconheceu a situação: "Eu sei que ainda não está bom. Mas eu vou garantir, a inflação seguirá sob controle. Você não vai mais pagar a taxa das blusinhas, salário-mínimo seguirá sempre acima da inflação, vamos investir para gerar mais empregos de qualidade, com salários melhores".
Gerar empregos mais qualificados, com salários, reconheçamos, faz parte da solução para esse drama dos alimentos caros que incomodam as famílias. Mas parece não ser tudo. Penso que a campanha dos presidenciáveis, nesse segundo turno, quando só restam dois candidatos, precisa mergulhar a fundo nesse problema, trazendo respostas mais convincentes, com soluços viáveis e adequadas.
