Foto: Rayane Venancio/Cidadeverde.com

A Câmara Municipal de Teresina realizou, nesta terça-feira (23), uma audiência pública para discutir a saúde mental da rede de apoio às pessoas com deficiência e Transtorno do Espectro Autista (TEA). O encontro teve como foco o apoio psicológico e a prevenção ao suicídio entre mães, pais e cuidadores, que enfrentam sobrecarga emocional diante dos desafios do cuidado diário.
A audiência foi proposta após relatos frequentes de sofrimento emocional vivenciados por famílias atendidas pela Associação de Amigos dos Autistas do Piauí (AMA Piauí). Segundo a presidente da entidade, Soraia Martins, muitas mães enfrentam quadros de depressão, ansiedade e esgotamento, agravados pela falta de assistência voltada aos autistas adultos.
“O que me levou a solicitar essa audiência foi a realidade que vivemos diariamente na AMA. Existe uma fragilidade emocional muito grande entre essas mães, que convivem com uma rotina ininterrupta de cuidados. Quando os filhos chegam à fase adulta, a situação se torna ainda mais difícil pela ausência de espaços, terapias e atendimentos adequados”, afirmou.
Soraia destacou que a situação tem levado algumas famílias a situações extremas. “A linguagem dessas mães é uma linguagem de sofrimento. Muitas vezes elas abrem mão da própria vida, dos sonhos e da carreira para cuidar dos filhos. Há casos de angústia tão intensa que chegam a resultar em pensamentos suicidas”, relatou.
Atualmente, a AMA Piauí atende 252 pessoas com autismo e acompanha suas famílias. De acordo com a presidente da associação, muitas mães cuidam sozinhas dos filhos e, em alguns casos, há mais de uma pessoa com diagnóstico de autismo na mesma família.
A psicóloga Patrícia Farias, que desenvolve um projeto de acolhimento a essas mães na AMA ressaltou que o fortalecimento da rede de apoio é fundamental não apenas para os cuidadores, mas também para o desenvolvimento das pessoas com autismo.
Foto: Rayane Venancio/Cidadeverde.com

“Quando trabalhamos a rede de apoio, conseguimos melhorar a qualidade de vida da família e os resultados das terapias. O cuidador principal, geralmente a mãe, exerce um papel fundamental na regulação emocional da criança ou do adulto autista”, explicou.
Segundo a psicóloga, o cuidado contínuo frequentemente provoca estresse crônico, insônia, ansiedade e depressão. “Já tivemos situações envolvendo tentativas de suicídio e até de homicídio. Por isso, iniciamos um trabalho terapêutico voltado para essas mães, primeiro com os casos mais graves e, agora, com atendimentos em grupo para quadros moderados e leves”, disse.
Durante a audiência, o vereador Venâncio Cardoso (MDB), responsável pela discussão, destacou a necessidade de ampliar as políticas públicas voltadas não apenas às pessoas com deficiência, mas também aos seus cuidadores.
Foto: Rayane Venancio/Cidadeverde.com

“Algo que tem me preocupado muito é o perfil do cuidador. Na grande maioria dos casos, é uma mãe atípica que cuida sozinha do filho, muitas vezes deprimida, exausta e sem atendimento psicológico adequado. Precisamos olhar para a saúde mental de quem cuida”, afirmou.
O parlamentar defendeu a criação de ações específicas para oferecer suporte psicológico aos pais e responsáveis durante o período em que os filhos recebem atendimento especializado.
“Não existe política pública eficiente para a pessoa com deficiência se não houver também uma política voltada para quem cuida dela. Há relatos de pessoas que chegaram ao suicídio por conta do adoecimento mental e da falta de apoio. Precisamos garantir dignidade tanto para os filhos quanto para seus cuidadores”, concluiu.
Os participantes reforçaram a necessidade de ampliação da rede de atendimento para autistas adultos e da criação de programas permanentes de acolhimento psicológico destinados às famílias.