O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, fechou esta segunda-feira (5) com alta de 7,70%, aos 206.912 pontos. Foi a primeira vez que o índice encerrou um pregão acima dos 200 mil pontos. Na máxima do dia, passou de 209 mil pontos, um patamar inédito.
O movimento também foi observado no câmbio. O dólar caiu 4,12%, encerrando o dia cotado a R$ 5,0010. Durante o pregão, chegou a encostar R$ 4,9530 e registrar a maior queda diária em oito anos.
A reação começou logo cedo. O contrato futuro do Ibovespa, que reflete a aposta dos investidores para o índice, abriu em disparada de 9%, e a bolsa entrou em leilão, mecanismo que interrompe as negociações por um tempo para conter variações muito bruscas de preço.
O que movimentou o mercado?
O motivo da valorização da Bolsa foi o resultado do primeiro turno das eleições. Contrariando parte das pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou a apuração à frente do presidente Lula (PT): pouco mais de 47% dos votos válidos, contra pouco mais de 45%.
Para a maioria do mercado, um governo Flávio aumenta as chances de mudança na política fiscal, a forma como o governo administra gastos e arrecadação. Segundo alguns analistas, gasto público menor reduziria a pressão sobre juros e inflação e favoreceria, principalmente, as ações ligadas ao consumo.
O analista Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, traz outra justificativa para o movimento: "Esse movimento de hoje acaba tendo muito mais a ver, na minha visão, com a mudança da percepção de risco aqui no Brasil do que com uma melhora imediata dos fundamentos da economia. E, assim, depois do resultado eleitoral, o mercado acabou passando a revisar aquelas expectativas para a política econômica a partir do próximo governo, principalmente na tão preocupante relação dos controles de gastos. E quando essa percepção de risco acaba melhorando, o investidor no geral acaba aceitando pagar mais pelos ativos brasileiros", afirma.
Além da entrada de capital estrangeiro, que tende a derrubar o dólar, Lima aponta um componente técnico na reação: "Muitos investidores já estavam posicionados para um cenário diferente antes da eleição. Eles precisaram ajustar rapidamente essas posições."
Para o gestor de Renda Variável e Investimentos da Rio Bravo, Rodrigo Boselli, a perspectiva de troca de governo criou uma expectativa mais positiva entre os investidores: "Quando surge a possível troca de governo, cria-se uma expectativa para o investidor de uma perspectiva melhor, mais construtiva, mais positiva em relação ao futuro econômico do Brasil."
Segundo ele, essa expectativa provocou um fechamento acentuado da curva de juros, ou seja, uma queda das taxas projetadas para diferentes prazos, o que muda a precificação dos ativos de risco. "É isso que está acontecendo hoje na Bolsa e em outros mercados também, que são sensíveis à taxa de juros de longo prazo", diz Boselli.
A dúvida, segundo o gestor, é sobre se esse movimento vai se sustentar: "Afirmar o que vai acontecer daqui para frente é muito difícil. Primeiro de tudo, daqui três semanas você ainda tem o segundo turno. Apesar de o candidato à oposição se mostrar teoricamente favorito, a eleição não acabou ainda. Depois, caso ele seja eleito, tem que haver uma definição de quem é a equipe econômica, qual que é o plano para atacar essas questões fiscais."
Para que a melhora continue, ele diz que a expectativa positiva "tem que ir se confirmando gradativamente".
Sidney Lima avalia que, se houver dúvidas sobre o compromisso fiscal, parte da alta de hoje pode ser devolvida: "A eleição mudou a percepção de risco. Mas agora o mercado vai querer ver se essa expectativa vai encontrar respaldo nas decisões concretas."
O segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula é no dia 25 de outubro. Até lá, o mercado deve acompanhar as pesquisas, o discurso dos dois candidatos sobre responsabilidade fiscal e quem poderá comandar a área econômica em cada governo.
